Do Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (em inglês a 23 de março de 2026 e em castelhano a 25 de março de 2026)
O capitalismo-imperialismo dos EUA faz a guerra contra o Irão devido às suas próprias razões imperialistas reacionárias... e NÃO por supostamente ter sido enganado por Israel
Esta semana, Joe Kent demitiu-se de “Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo”, cargo em que dependia diretamente de Tulsi Gabbard, a Diretora de Inteligência Nacional de Trump. Kent declarou: “Não posso, em boa consciência, apoiar a atual guerra contra o Irão. O Irão não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e é evidente que iniciámos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lóbi norte-americano.” Infelizmente, milhares de progressistas começaram a espalhar esta citação, em sinal de aprovação.
Há aqui duas coisas erradas: Primeiro, Joe Kent é um acérrimo fascista nacionalista branco; então, por que raio de razão vocês estão a comemorá-lo acriticamente se estão contra o fascismo? Segundo, e muito mais problemático: a verdade é a oposta da que disse Joe Kent. Israel não faz o que quer no Médio Oriente, os EUA sim. O maior papel de Israel no mundo atual é o de principal força de imposição da dominação capitalista-imperialista dos EUA no Médio Oriente. Dentro desse papel, Israel pode tomar a iniciativa, mas a decisão última e a direção estratégica para a dominação regional está do lado dos EUA.
A guerra dos EUA e Israel contra o Irão faz parte da longa trajetória do imperialismo ocidental — e hoje em dia isto refere-se principalmente ao capitalismo-imperialismo dos EUA — para controlar a região estratégica do Médio Oriente. O Médio Oriente alberga mais de quinhentos milhões de pessoas e uma enorme proporção do petróleo e gás natural do mundo. A região em si mesma é o local de encontro de três continentes e uma encruzilhada estratégica para o comércio mundial, como vemos hoje. Os EUA foram o primeiro país a reconhecer Israel como estado e, especialmente desde a guerra de 1967 de Israel contra o Egito, a Síria e vários outros estados árabes, onde conseguiu anexar vastas extensões de território, Israel tornou-se o principal executor dos interesses imperialistas doe EUA nessa região volátil e extremamente estratégica.
Ao longo das últimas duas décadas e pouco, à medida que a própria região passava por mudanças, a situação tornou-se mais complexa. Emergiram interesses conflituantes, e por vezes diferenças reais e confrontos políticos entre os EUA e Israel, inclusive sobre a melhor forma de conter e isolar o Irão e sobre como lidar com a população palestina oprimida e brutalmente dominada por Israel, até ao extremo do atual genocídio. Um exemplo relativo ao Irão e ao seu esforço para obter armas nucleares: os EUA queriam isolar o Irão a nível internacional através de sanções económicas e forçá-lo a assinar um tratado com um estrito calendário de inspeções para garantir que não poderia fabricar esse tipo de armas. Israel considerava que esse tratado não seria exequível e defendia uma ação militar direta. Por vezes, estas diferenças foram agudas: mas tanto os EUA como Israel concordavam quanto ao alvo estratégico e ao objetivo mais geral de impedir que o Irão desafiasse o monopólio nuclear dos EUA e Israel no Médio Oriente.
Isto são diferenças no interior do bloco imperialista encabeçado pelos EUA. A verdade é que todos os presidentes e políticos de peso nos EUA compreenderam e agiram com base no facto de Israel — esse poderoso enclave militar “orientado para o Ocidente” nessa crucial e volátil região oprimida — ser estrategicamente vital para manter a dominação dos EUA sobre a região. Apesar de todas as suas diferenças em relação a outras questões, tanto Biden como Trump (e mais tarde Kamala Harris) apoiaram firmemente o genocídio levado a cabo por Israel contra a Palestina. Como escrevemos em “Bastião do Iluminismo” [inglês/castelhano], “com o seu massivo arsenal nuclear, o seu nível tecnológico europeu/norte-americano e uma substancial parte da sua população alistada à ‘lógica’ e à imoralidade do sionismo, Israel desempenha um papel insubstituível na imposição dos interesses dos EUA.”
E como escreveu Bob Avakian, há quase dois anos:
Manter Israel como estado “orientado para o Ocidente” é de importância decisiva para os imperialistas dos EUA e, por sua vez, a natureza sionista (supremacista judaica) de Israel é de importância vital para a manutenção de Israel como bastião de apoio à dominação dos EUA, especialmente em oposição à influência do Irão — e, para além disso, da Rússia, e cada vez mais da China — nessa região estratégica.
— Mensagem nº 35 nas redes sociais, “Acabar com o apartheid como parte de acabar com toda a opressão: A África do Sul não é um modelo” [inglês/castelhano]
Todos os políticos de peso do sistema norte-americano veem isto e agem de acordo com isto, independentemente das diferenças (por vezes significativas) sobre como fazer isso.
A atual guerra constitui uma subida de nível... mas não surgiu do nada
No que diz respeito ao afã dos EUA e Israel para conterem o Irão, isto constitui uma subida de nível, mas não é um desenvolvimento inesperado. Como escrevemos a semana passada [inglês/castelhano], esta guerra...
...é o resultado de 47 anos de esforços dos EUA e Israel para conter, enfraquecer e, algumas vezes, derrubar a República Islâmica do Irão. Esses esforços vão desde a guerra Irão-Iraque de 1980–88, instigada e alimentada pelos EUA, a décadas de sanções paralisantes contra o Irão, a ciberataques e assassinatos de líderes iranianos e a ataques diretos dos EUA e Israel contra o Irão e os seus aliados ao longo dos últimos anos.
O Padrinho e o Capo
Ver também:
- Três linhas divisórias:
Dos comunistas revolucionários, sobre a guerra dos EUA e Israel contra o Irão - Crimes de guerra por cima de crimes de guerra:
A guerra dos EUA e Israel contra o Irão e o Médio Oriente [inglês/castelhano]
Sim, Israel persegue os seus próprios interesses dentro deste acordo e luta pelo melhor arranjo possível do ponto de vista de como percebe esses interesses, mas é um acordo dentro de uma dominação imperial mais geral. No sistema criminosos que é o imperialismo mundial, Israel é um “capo”, não um “Don”. (No gíria da máfia, um capo é um líder que gere as operações, mas continua subordinado. O Don é o líder máximo e o chefe do crime.) O capo tem alguma independência e pode até fazer sugestões mas, em última instância, o Don é quem toma as decisões finais. A questão é que, independentemente do papel que Israel possa ou não ter desempenhado a impulsioná-lo, Trump e as pessoas à volta dele decidiram avançar para a guerra com base na sua avaliação de como essa guerra iria ou não reforçar os interesses imperialistas dos EUA, tanto na sua contenda com poderosos rivais como a Rússia e a China, como na sua necessidade de intensificarem o seu saque e dominação a nível mundial.
Suponhamos que Marco Rubio estava a dizer a verdade quando a 2 de março disse que a ideia para esta guerra veio de Israel. E então? Israel — tal como um capo agressivo e arriscado — lança ideias e ultrapassa os limites; mas, com tanto em jogo, a decisão final recai sobre o Don. Um exemplo: após o recente bombardeamento israelita da parte iraniana dos campos de gás de Pars Sul (que o Irão partilha com o Catar, um país árabe aliado dos EUA), em retaliação o Irão bombardeou a fábrica de gás natural liquefeito do Catar. Em seguida, Trump respondeu lendo a cartilha numa publicação em maiúsculas nas redes sociais dizendo que não haveria mais ataques desse tipo contra os campos de gás.
A atual guerra criminosa e não provocada contra o Irão mostrou ser muito mais espinhosa do que esperavam Trump e as pessoas ao redor dele. O seu desenlace é incerto e extremamente perigoso, bem para além da atual situação. Mas esta guerra não foi um capricho. Os capitalistas-imperialistas dos EUA estão perante importantes desafios ao seu sistema, como a crescente influência e poderio do seu rival imperialista, a China, que tem laços cada vez maiores com o Irão e tem vindo a exercer cada vez mais influência e presença na região, o que a tem compelido a tomar esses riscos.
Uma mensagem aos progressistas: Procurar soluções fáceis e agarrar-se a ferros em brasa é o caminho para o desastre
Num momento em que há tanto em jogo, compreendermos cientificamente as verdadeiras causas por trás de tudo isto irá determinar o futuro que teremos.
Neste momento, há uma verdadeira divisão no interior do movimento MAGA. Essa divisão parece ter a ver com o quão rígida e sólida deve ser a supremacia branca, e está relacionada com as questões do papel dos EUA no mundo. O setor mais abertamente nazi encontrou no antissemitismo e no nazismo declarado uma ferramenta cada vez mais natural e uma alavanca cada vez mais poderosa para atrair pessoas e disputar a sua influência. Outros setores, por seu lado, são mais favoráveis à continuação do programa fascista tradicional de apoio a Israel, juntamente com o uso de tópicos antissemitas para fins políticos internos. Devemos prestar atenção a essas divisões.
Mas isso é muito diferente de promover acriticamente a análise de um fascista só porque ele afirmou que Israel empurrou os EUA para esta guerra. Os EUA não são uma entidade inocente e bem-intencionada que é enganada por “judeus astutos” de Israel, como acham Kent e outros; na realidade, os EUA são o mais sangrento império da história, responsável pelo assassinato de mais de 14 milhões de pessoas em guerras não provocadas, só nos últimos 80 anos! Os EUA já cometiam genocídios e escravizavam milhões de pessoas muito antes de sequer ter sido inventado o sionismo.
As pessoas nos EUA têm uma responsabilidade especial de se levantar contra os crimes que o “nosso próprio governo” comete, não de deixar que o imperialismo dos EUA fique impune, especialmente quando ele está a aterrorizar o mundo inteiro.
Se acontecer que estás de acordo com a análise simplista de alguém que é um fascista recalcitrante, talvez seja tempo de recuar e pensar. As ideias simplistas sobre as causas — que geram soluções simplistas — são mais fáceis. Mas se realmente queres pôr um fim a isto, tens de examinar as coisas mais a fundo. O líder revolucionário Bob Avakian escreveu:
Para se entender por que razão somos confrontados com a situação em que nos encontramos, é necessário não só responder ao que está a acontecer na superfície num dado momento — e, na realidade, deixar que a situação nos sacuda abane de um lado para o outro —, mas analisar abaixo da superfície, para descobrir as principais tendências subjacentes e as causas das coisas, e chegar a uma compreensão do problema fundamental e da solução real. Isto significa chegar a uma compreensão científica de que vivemos sob um sistema, e o que é realmente esse sistema (o sistema do capitalismo-imperialismo); trabalhar para compreender as relações e as dinâmicas mais profundas deste sistema e como isso determina o quadro geral para a maneira espontânea de pensar e reagir de diferentes setores da sociedade perante os acontecimentos na sociedade e no mundo, e qual é o caminho possível em frente para transformar tudo isso ao serviço dos interesses das massas da humanidade e, em última instância, da humanidade como um todo.
Já anteriormente expusemos parte do que é uma análise muito mais vasta. Noutros artigos [inglês/castelhano] desta edição damos uma ideia de como uma revolução que conduza a um sistema fundamentalmente diferente, guiado pela Constituição para a Nova República Socialista na América do Norte [inglês/castelhano], escrita por Bob Avakian, poderia levar a uma relação totalmente diferente com as pessoas no mundo. As mesmas contradições que tornam o mundo tão perigosamente explosivo também fazem com que a revolução seja mais possível do que em “tempos normais”, mas tornar realidade essa possibilidade depende de nós... de TODOS nós.
Se levas a sério realmente chegar a conhecer as raízes das coisas e realmente chegar às raízes do que realmente poderia resolver isto, então precisas de entrar mais profundamente no método, na análise, a na estratégia e solução contidas no novo comunismo desenvolvido por Bob Avakian.