Publicado no Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (em inglês a 27 de julho de 2026 e em castelhano a 30 de julho de 2026)
Da Campanha Internacional de Emergência pela Libertação Imediata dos Presos Políticos no Irão
1500 prisioneiros no corredor da morte em heroica greve de fome contra as execuções, num momento em que se intensifica a agressão dos EUA contra o Irão
Nota da redação do revcom.us: Recebemos o seguinte texto da Campanha Internacional de Emergência pela Libertação Imediata dos Presos Políticos no Irão (CIE). A tradução do farsi (persa) para inglês foi feita por meios automáticos editados e a do inglês para castelhano foi feita pelo revcom.us.
A 25 de julho, 1500 prisioneiros condenados à morte já estavam há 13 dias em greve de fome na maior prisão estatal do Irão, para exigirem o fim das execuções. Esta greve na 2ª Ala da prisão de Ghezel Hesar foi iniciada a 13 de julho quando as autoridades prisionais transferiram seis dos seus companheiros de ala para o confinamento solitário, muitas vezes um prelúdio da execução. Ghezel Hesar, em Karaj, a cerca de 40 km a oeste da capital do país, Teerão, aloja entre 16 e 21 mil presos, milhares deles condenados à morte — uma grande percentagem dos quais por acusações alegadamente “relacionadas com drogas”.1 A 2ª Ala, que aloja cerca de 1500 dos presos condenados à morte, foi o local de uma greve de fome semelhante em outubro de 2025; ao fim de sete dias, os responsáveis da prisão prometeram uma pouco definida moratória das execuções e uma revisão dos casos “relacionados com drogas”. As execuções “relacionadas com drogas” nessa prisão de facto diminuíram, mas voltaram a aumentar em 2026 com a intensificação da repressão interna pelo regime, entretanto sob ataque dos EUA e Israel.
Desta vez e até agora, as autoridades prisionais têm recusado reunir-se com os prisioneiros em greve e, em vez disso, deslocaram guardas para as áreas comuns e tentaram bloquear as comunicações telefónicas. Em resposta, alguns presos costuraram dramaticamente os lábios com agulhas e linha, numa greve de fome seca, sem ingestão de líquidos ou alimentos sólidos. Inúmeros prisioneiros desmaiaram devido a efeitos e problemas médicos, enquanto outros presos se ajudavam mutuamente. O perigo para todos estes prisioneiros, desde os efeitos sobre a saúde deles até às ameaças de repressão, é muito grave.
A 19 de julho, a CIE emitiu um “Alerta de Emergência”, um apelo a que se espalhasse a mensagem e se defendesse a vida dos grevistas de fome de Ghezel Hesar. Aí assinalou: “Mesmo quando alguns dos presos estavam a desmaiar devido a problemas médicos, os prisioneiros em greve de fome prometeram continuar o seu heroico protesto unificado, alinhando-se ombro a ombro ao longo dos corredores, erguendo cartazes escritos à mão e gritando ‘Não às execuções’ [ver o vídeo]. É este o som antes da fúria daqueles que estão oprimidos e ameaçados de morte pelos bombardeamentos norte-americanos e pelas forcas da República Islâmica, que exigem viver de pé em vez de morrer de joelhos? Não deveríamos estar com eles e aprender com a sua coragem, dignidade e humanidade?”
Alastra o apoio aos grevistas de fome
A agência noticiosa de esquerda em língua farsi Akhbar-Rooz publicou a 24 de julho mais informações sobre a repressão da greve de fome e o crescente apoio público, embora ainda inicial.
Guardas prisionais e forças de segurança foram deslocados para os corredores da 2ª Ala e estão a impedir que os presos se reúnam em espaços públicos e gravem e divulguem imagens. Segundo a Rede de Documentação de Direitos Humanos do Baluchistão, vários presos foram violentamente devolvidos às suas celas. Há também relatos de interrupções das chamadas telefónicas e da internet ao redor da prisão, bem como de esforços das forças de segurança para impedir reuniões de familiares dos prisioneiros.
Em resposta a esta situação, nove organizações sindicais e da sociedade civil emitiram uma declaração conjunta apelando ao público, aos trabalhadores, professores, estudantes, aposentados e enfermeiros e ao movimento das mulheres para que sejam as vozes dos prisioneiros de Ghezel Hesar e das famílias deles. Os signatários salientaram que “A execução de qualquer pessoa e sob qualquer pretexto é um assassinato cometido pelo Estado” e apelaram a que a oposição à pena de morte se converta numa das principais exigências da sociedade iraniana.
Negar Jahantab, uma cineasta, atriz de teatro e vítima da repressão da revolta Mulher, Vida, Liberdade de 2022 no Irão, publicou um vídeo com ela corajosamente só e de pé frente à Casa dos Artistas Iranianos, apelando à comunidade artística iraniana para não ficar em silêncio perante as sentenças de morte. “Todos vocês têm plataformas... Por que razão não vêm protestar todos juntos frente às portas da prisão? Ninguém tem o sangue mais vermelho neste caminho, todos juntos temos de gritar o nosso protesto nas ruas, não atrás de um telefone!”
70 manifestantes condenados à morte em Isfahan, greve de fome reprimida
Ao mesmo tempo, em Dastgerd, também conhecida como Prisão Central de Isfahan, na província central de Isfahan, “julgamentos” rápidos e draconianos resultaram em sentenças de morte para pelo menos 70 manifestantes da revolta de janeiro de 2026. Duas alas da prisão iniciaram greves de fome em protesto contra as execuções programadas, mas foram forçadas a terminá-las sob intensas ameaças das autoridades prisionais. As famílias também enfrentam ameaças constantes para as impedir de divulgar os casos dos seus entes queridos.2 O rapper ativista Hossein Afrasiab foi violentamente detido em março com acusações desconhecidas. A 18 de julho ele entrou em greve de fome em Dastgerd para protestar contra as execuções e, segundo a família dele, que está extremamente preocupada, ele está desaparecido.
Só nas últimas duas semanas, em todo o país pelo menos 50 pessoas ligadas aos protestos de janeiro de 2026 foram executadas ou condenadas à morte, viram mantidas as suas sentenças da morte ou foram-lhes levantadas acusações capitais como “inimizade contra deus” e “corrupção na terra”.3
Dois jovens detidos durante os protestos de janeiro de 2026 pelo caso da Praça Alikhani4 em Isfahan, Erfan Esfandiari e Gol Mohammad Mohammadi, foram executados a 18 de julho em Dastgerd. Aparentemente, a “prova” contra Esfandiari, de 19 anos, veio de câmaras CCTV que o mostravam a abrir a porta do prédio dele a manifestantes em fuga e, depois, a tentar mantê-la fechada contra a ofensiva da polícia.
Entretanto, as “Terças-feiras Não às Execuções” já ultrapassaram a sua 130ª semana de greves de fome contínuas, espalhando-se agora a 59 prisões em todo o Irão.
O fascista psicopata Trump explora as execuções no Irão ao mesmo tempo que as bombardeia
Erfan Esfandiari: Executado na prisão de Isfahan, julho de 2026. Por proteger manifestantes.
Alex Pretti: Executado na rua pelo ICE, janeiro de 2026. Por proteger manifestantes.
...Claro
(Gráfico: @Iranprisonemerg)
Uma resposta VERDADEIRAMENTE repugnante a esta terrível injustiça veio de nada menos que Donald Trump, como parte do crescente belicismo dele contra o Irão. A 19 de julho, ele republicou na sua absurda rede “Truth” Social um tweet da operacional pró-EUA e exilada iraniana Masih Alinejad sobre a execução de Esfandiari (pelo qual ela lhe agradeceu descaradamente). Depois, republicou um tweet sobre Mohammadi, um co-acusado de Esfandiari, acrescentando: “O mais recente dos 52 000, ou mais, manifestantes inocentes. Selvagens!!! Quando irão acordar os estúpidos Democratas???”
Deixando de lado o número completamente indocumentado de 52 000 manifestantes mortos, esta publicação deixou clara a verdadeira motivação das lágrimas de crocodilo de Trump pelos manifestantes executados no Irão: culpar os Democratas até mesmo pelas tentativas a meio-gás de aplicarem a Lei dos Poderes da Guerra para exigirem que o presidente justifique ao Congresso as suas razões para iniciar a guerra contra o Irão.
De que lado estás?
Há fascistas que apoiam desavergonhadamente a guerra dos EUA e Israel contra o Irão. Mas mais preocupante são as pessoas de “esquerda” e as pessoas bem-intencionadas que apoiam em silêncio ou abertamente a República Islâmica do Irão (RII) e os crimes do regime contra o povo iraniano, bem como contra os corajosos prisioneiros, porque a RII alega ser o suposto “eixo de resistência” de oposição aos monstruosos crimes dos EUA.
Será possível ser-se (com razão) contra a guerra dos EUA contra o Irão mas, ainda assim, apoiar o encarceramento, a tortura e a execução de dissidentes políticos no Irão? Será possível ignorar as repetidas revoltas em massa e a brutal repressão no Irão (2017, 2019, a revolta Mulher, Vida, Liberdade de 2022-2023, ou os protestos de janeiro de 2026)? Será possível ser-se tão demitido e condescendente (ou cínico) para se considerar todos esses protestos e dissidência política contra uma teocracia de 47 anos como mera obra ou propaganda dos imperialistas ou dos sionistas? Será que importa que seja VERDADE que a RII é um regime opressor, ainda que os seus crimes sejam anões quando comparados com os dos imperialistas dos EUA?
Dizem que é preciso apoiar o Irão porque é o único país que está com os palestinos ou que enfrenta os EUA e Israel. Mas, em primeiro lugar, a posição do Irão nunca foi a de uma genuína libertação do povo palestino (nem de outros), mas sim a de ganhar influência regional usando um ou outro grupo que possa controlar — ainda que o próprio Irão esteja profundamente ligado e dependente do mercado imperialista mundial. E, em segundo lugar, esta lógica acaba objetivamente por colocar um grupo de povos oprimidos contra outro (por exemplo, para apoiar os palestinos, teríamos de ignorar as mulheres iranianas, ou vice-versa).
Por outro lado, será que não poderia haver um efeito dinâmico positivo se houvesse uma massiva oposição aos crimes de guerra dos EUA que, ao mesmo tempo, estivesse com as massas populares no Irão, incluindo a resistência política?
Como temos dito repetidamente e voltaremos a fazer:
Todos os presos políticos no Irão têm que ser incondicional e imediatamente libertados.
Os governos dos EUA e do Irão agem em função dos seus interesses nacionais. E, neste caso, nós, as pessoas nos EUA e no Irão, juntamente com as pessoas do resto do mundo, temos os NOSSOS próprios interesses compartilhados, como parte de chegarmos a um mundo melhor: unirmo-nos para defender os presos políticos no Irão. Nos EUA, temos uma especial responsabilidade de nos unirmos de uma forma muito ampla contra esta vil repressão levada a cabo pela RII, e de nos opormos ativamente a qualquer manobra bélica do governo dos EUA que traga um ainda mais insuportável sofrimento ao povo do Irão.
Exigimos à República Islâmica do Irão: LIBERTAÇÃO IMEDIATA DE TODOS OS PRESOS POLÍTICOS! FIM ÀS EXECUÇÕES!
Dizemos ao governo dos EUA: NÃO ÀS AMEAÇAS E MANOBRAS DE GUERRA CONTRA O IRÃO! LEVANTAMENTO DAS SANÇÕES!
_______________
NOTAS:
1 Segundo a ONG Iran HR, 795 dos 1635 presos executados em 2025, ou seja quase metade, foram-no por acusações alegadamente “relacionadas com drogas”. (As estatísticas sobre as execuções no Irão variam muito porque a maioria de execuções não são divulgadas publicamente, sobretudo as relacionadas com drogas, pelo que as diferentes organizações recolhem dados dos artigos de imprensa, dos prisioneiros e dos contactos de cada organização.) As minorias étnicas têm sido um alvo especial. De modo similar, os executados com acusações de assassinato são particularmente discriminados, com o mais frágil dos procedimentos legais e o sistema de “qizas” de pagamentos à família da vítima como perdão. Execuções por acusações relacionadas com drogas em 2025 (em inglês), iranhr.net, 17 de abril de 2026; e Relatório Anual de 2025 sobre a pena de morte no Irão (em inglês), iranhr.net, 13 de abril de 2025.
2 Mais de 70 manifestantes de janeiro à espera da forca na prisão de Isfahan; pelo menos 26 em risco iminente de execução (em inglês), ONG Direitos Humanos do Irão, 21 de julho de 2026.
3 Escalada da investida judicial contra os manifestantes: Uma revisão dos casos mais significativos das passadas duas semanas (em inglês), Agência Noticiosa de Ativistas dos Direitos Humanos, 24 de julho de 2026.
4 Num dos casos mais notórios, a 8 de janeiro na Praça Alikhani, quatro membros das forças paramilitares Basiji morreram durante a revolta. Em represália, o regime iraniano deteve todos os manifestantes que conseguiu e julgou 59 pessoas, a maioria delas sem acesso a meios judiciais e muitas após tortura. Catorze pessoas foram condenadas à morte. Erfan Esfandiari e Gol Mohammad Mohammadi foram executados a 18 de julho e outras 12 pessoas foram transferidas para confinamento solitário pré-execução. Escalada da investida judicial contra os manifestantes (em inglês), Agência Noticiosa de Ativistas dos Direitos Humanos, 24 de julho de 2026.